Nos dias de hoje, a maioria de nós já ouviu falar em inteligência emocional. No século XXI, esse termo tornou-se uma característica indispensável em muitas áreas da vida, inclusive no meio corporativo. Mas o que significa inteligência emocional? Trata-se de um conceito relacionado à inteligência social, criado pelo psicólogo estaduniense Daniel Goleman. Ela divide-se entre autoconhecimento emocional, controle emocional, automotivação, empatia e desenvolvimento de relacionamentos interpessoais – um conjunto de aptidões essenciais para sermos capazes de navegar pelos obstáculos da vida de maneira saudável. Apesar dos inúmeros desafios que somos obrigados a enfrentar diariamente, inclusive sob o viés de expectativas e cobranças constantes, podemos aprender a lidar melhor com os percalços dessa aventura que chamamos de vida. Ao sabermos reconhecer e administrar nossas próprias emoções, além de conseguirmos reconhecer as das outras pessoas, seremos capazes de levar uma vida com maior clareza e consciência.

De acordo com os estudos científicos mencionados por Goleman, além dos benefícios que a inteligência emocional traz às nossas vidas pessoais, ela também tem um impacto positivo em nossa performance acadêmica: “Agora é possível afirmar cientificamente: ajudar as crianças a aperfeiçoar sua autoconsciência e confiança, controlar suas emoções e impulsos perturbadores e aumentar sua empatia, resulta não só em um melhor comportamento, mas também em uma melhoria considerável no desempenho acadêmico.” Isso porque elas adquirem maior capacidade de concentração, raciocínio e confiança para estudar, o que facilita a absorção de novas informações e conhecimentos.

Além disso, já foi comprovado que essa competência é essencial para o cultivo de um cotidiano com menos conflitos, frustrações e inseguranças. Qualquer relação interpessoal – seja ela com a família, amigos, parceiro(a)(s), chefes ou colegas de trabalho – necessita desse tipo de inteligência para melhorar tanto sua qualidade como sua durabilidade no geral. Como Goleman afirma: “Entre os talentos emocionais estão: autoconsciência; identificar, expressar e controlar sentimentos; controle de impulso; e controlar tensão e ansiedade. (...) Muitas aptidões são interpessoais: interpretar sinais sociais e emocionais, ouvir, ser capaz de resistir a influências negativas, considerar as perspectivas dos outros e compreender qual comportamento é aceitável numa determinada situação.”

Ou seja, estamos falando de competências aplicáveis em qualquer tipo de circunstância. Seja na hora de expressar chateação a um amigo, resolver um conflito com o chefe, vender um produto a um cliente ou terminar um relacionamento amoroso. Sim, tratam-se de situações muito delicadas e complicadas de lidar. Mas considerar os sentimentos e necessidades do outro, expressar nossa opinião de maneira assertiva e respeitosa, controlar impulsos emocionais nocivos e nos automotivar são elementos vitais para o exercício da inteligência emocional. Basicamente, ela nos ensina a lidar tanto com os outros como com nós mesmos de maneira justa e saudável. Afinal de contas, a vida é cheia de altos e baixos e somos regularmente confrontados com situações que requerem, no mínimo, certa dose de cuidado e reflexão.

Claro, não existe fórmula mágica para ter bons relacionamentos com todos que cruzam o nosso caminho – afinal de contas, as pessoas são diferentes e não podemos controlar as atitudes dos outros. Além disso, cada um tem sua personalidade e suas preferências. Mas podemos, de fato, melhorar certos aspectos do nosso dia-a-dia aplicando as aptidões mencionadas acima, conforme nossas possibilidades. Dito isto, considero muito importante nos informarmos mais sobre inteligência emocional, de maneira a melhorar não apenas nossa qualidade de vida, como também a de todos à nossa volta.

Por que precisamos de inteligência emocional?

Todo ser humano passa a vida se deparando com diversos tipos de desafios, sejam eles relacionados à família, ao amor, à carreira, à falta de segurança, a doenças físicas e psíquicas, à perda de entes queridos, etc. Essas situações fazem parte da nossa existência, e não podemos evitá-las – portanto, o que nos resta é nos esforçarmos para lidar com elas da melhor maneira possível. Além de tudo, também devemos tomar cuidado para não deixar marcas negativas e duradouras em outras pessoas. Não podemos nos esquecer de que nossas ações afetam aqueles que estão à nossa volta, por isso devemos aprender a refletir e agir com cautela em certas ocasiões.

A inteligência emocional também está intimamente ligada à personalidade e ao caráter de uma pessoa. Ela sabe conviver em sociedade, respeitar as diferenças, não ultrapassar limites, avaliar qual comportamento é adequado em uma determinada situação e, acima de tudo, ter empatia pelos outros? Além disso, ela sabe dizer não em situações de risco, se impor frente a injustiças e debater de maneira construtiva, quando considerar necessário? Outras características – tais como a honestidade e a humildade – são importantíssimas para o exercício dessas competências. Seus benefícios são incontáveis: maior equilíbrio emocional, diminuição de estresse e ansiedade, maior clareza nos objetivos, aumento de produtividade, aumento de autoestima, maior realização pessoal, entre outros.

Ou seja, se todos trabalharmos para desenvolvê-las, poderemos criar uma sociedade cada vez mais consciente, empática e favorável para todos. Mas, para colher esses benefícios, devemos praticar o autoconhecimento, a reflexão e a compreensão das dificuldades dos nossos semelhantes. De fato, não é fácil trabalhar características como essas - o ser humano é feito de fases, emoções, experiências, qualidades e defeitos - por isso não devemos levar todos esses conceitos à risca. Essas vivências fazem parte da nossa existência, e também tornam nossas vidas mais coloridas. Sentir e expressar emoções não é negativo em si, pelo contrário: em diversas ocasiões, pode ser algo muito bom. No entanto, não podemos esquecer nosso espírito comunitário, como descrito por Goleman:

“Nos países desenvolvidos, a tendência é para um individualismo exacerbado, o que acarreta, conseqüentemente, uma competitividade cada vez maior – isso pode ser constatado nos postos de trabalho e no meio universitário. Essa visão de mundo traz consigo o isolamento e a deterioração das relações sociais. A lenta desintegração da vida em comunidade e a necessidade de auto-afirmação estão acontecendo, paradoxalmente, num momento em que as pressões econômico-sociais estão a exigir maior cooperação e envolvimento entre os indivíduos.”

Inteligência emocional & problemas sociais

A falta de inteligência emocional está relacionada, acima de tudo, a diversos problemas sociais que nos assolam há décadas. Isso porque ela não está apenas ligada a questões de cunho social, mas também à resiliência e força psíquica de um indivíduo. A partir do momento em que somos capazes de lidar de forma madura e saudável com os incontáveis desafios que inevitavelmente cruzarão o nosso caminho, mais nos sentiremos confiantes e conscientes em relação à nossa própria realidade. Com o suporte de inúmeros estudos, Daniel Goleman chega exatamente ao cerne da questão:

“Na última década, mais ou menos, proclamaram-se ‘guerras’, sucessivamente, à gravidez na adolescência, à evasão escolar, às drogas e, mais recentemente, à violência. O problema dessas campanhas, porém, é que chegam tarde demais, depois que o problema visado já atingiu proporções epidêmicas e deitou firmes raízes na vida dos jovens. São intervenções em crises, o que equivale a enviar ambulâncias para o resgate, em vez de dar uma vacina que previna a doença.”

Para ele, o ideal seria ensinar nossas crianças e jovens a encararem as situações difíceis da vida de maneira construtiva, a fim de preservarem a própria saúde psicológica e a dignidade dos envolvidos. Desse modo, diversos problemas futuros poderiam ser evitados já nos primeiros anos de vida, pois o jovem cresceria mais fortalecido para enfrentar os obstáculos que viessem à frente. Além disso, a capacidade de resistir a influências negativas e de criar o próprio caminho é um ótimo recurso para desviá-los de um futuro possivelmente criminoso ou nocivo. Como excelentemente descrito por Christina Berndt, autora do livro Resiliência: O Segredo da Força Psíquica, “É possível que crianças fortes tenham mais coragem de romper com modelos impostos e de seguir suas próprias concepções.”

Goleman analisou diversos programas escolares direcionados ao desenvolvimento da inteligência emocional em crianças e jovens – especialmente àqueles em situação de risco – e chegou à conclusão de que eles fazem uma grande diferença na saúde psíquica dos alunos a longo prazo: “Além das vantagens educacionais, os cursos de inteligência emocional parecem ajudar as crianças a melhor desempenhar seus papéis na vida, tornando-se melhores amigos, alunos, filhos e filhas – e no futuro têm mais probabilidade de serem melhores maridos e esposas, trabalhadores e chefes, pais e cidadãos.”

Além disso, para ele, toda escola deveria dedicar-se ao ensinamento de inteligência emocional, visto que ela é essencial durante o período de desenvolvimento de um indivíduo:

“Como a vida em família não mais proporciona a crescentes números de crianças uma base segura na vida, as escolas permanecem como o único lugar a que a comunidade pode recorrer em busca de corretivos para as deficiências da garotada em competência emocional e social. Isso não quer dizer que as escolas, sozinhas, possam substituir todas as instituições sociais que muitas vezes já estão ou se aproximam do colapso. Mas, como praticamente toda criança vai à escola (pelo menos no início), este é um lugar que pode proporcionar às crianças os ensinamentos básicos para a vida que talvez elas não recebam nunca em outra parte.”

Porque o QI não define o sucesso

A ideia de que o QI de uma pessoa define seu grau de sucesso e prosperidade no futuro já foi desbancado há muitos anos. Isso porque esse conceito desconsidera o fato de haverem vários tipos de inteligência diferentes, como devidamente estudado e comprovado pelo psicólogo Howard Gardner. Entre os diferentes tipos constam as inteligências lógico-matemática, lingüística, musical, naturalística, corporal-cinestésica, espacial, interpessoal e intrapessoal. Ou melhor, a inteligência emocional também faz parte das principais competências de um indivíduo, especialmente ao considerarmos as habilidades inter e intrapessoais:

“É esse o problema: a inteligência acadêmica não oferece praticamente nenhum preparo para o torvelinho – ou para a oportunidade – que ocorre na vida. Apesar de um alto QI não ser nenhuma garantia de prosperidade, prestígio ou felicidade na vida, nossas escolas e nossa cultura privilegiam a aptidão no nível acadêmico, ignorando a inteligência emocional, um conjunto de traços – alguns chamariam de caráter – que também exerce um papel importante em nosso destino pessoal.” (Inteligência Emocional: A Teoria Revolucionária Que Redefine o Que é Ser Inteligente, de Daniel Goleman)

Segundo Goleman, o QI contribui com cerca de 20% para os fatores que determinam o sucesso na vida, o que deixa os outros 80% restantes por conta de outras variáveis. Dentre essas variáveis estão aspectos como classe social, inteligência emocional, sorte, entre outros não especificados. Dessa maneira, ele desbanca o mito de que a inteligência lógica (QI) é o único parâmetro para medir as capacidades intelectuais de um indivíduo.

Podemos aprender a ter inteligência emocional?

Sim, até mesmo os adultos com dificuldades nessa área podem aprender a desenvolver inteligência emocional. Para resumir, ela baseia-se na capacidade de superar crises durante a vida, utilizando suas competências pessoais e sociais para aproveitá-las tanto como parte de seu desenvolvimento pessoal, como do de outras pessoas. Além disso, já foi comprovado que é possível combater tendências genéticas e reformular hábitos profundamente arraigados que adquirimos ao longo da vida, como evidenciado no livro Inteligência Emocional: A Teoria Revolucionária Que Redefine o Que é Ser Inteligente: “Como observam os geneticistas comportamentais, os genes, por si só, não determinam o comportamento; o ambiente em que vivemos, sobretudo quando experimentamos e aprendemos enquanto crescemos, molda a maneira de uma predisposição temperamental manifestar-se no desenrolar da vida.”

Para resumir, se você deseja melhorar sua qualidade de vida, não tenha dúvidas de que se dedicar ao desenvolvimento das competências mencionadas ao longo desse texto é a melhor opção. Seja ao ler livros, pesquisar, dividir experiências com pessoas, fazer cursos ou refletir sobre a vida, você poderá exercitar o que há de melhor em você. Consultar um psicólogo ou frequentar cursos de coaching – assim como diversas palestras ligadas ao tema – também é uma ótima alternativa.

De qualquer maneira, existem passos que podemos seguir para melhorar nossa inteligência emocional – prestar atenção em nossas emoções, tentar reduzir sentimentos negativos, enfrentar nossos problemas de maneira assertiva, praticar a empatia e estabelecer nossas prioridades são as melhores alternativas para aperfeiçoar o equilíbrio emocional. Esses exercícios servem para nos dar mais controle sobre nossas emoções, sem que nos deixemos dominar por elas em situações críticas. Afinal de contas, a ideia é preservar nossa saúde psíquica, e não eliminar os sentimentos da nossa vida. Eles são, em boas medidas, vitais para o nosso desenvolvimento.

Não podemos ser ingênuos e acreditar que existem pessoas com uma inteligência emocional perfeita, pois nenhum ser humano atinge a perfeição. Cada um de nós trava uma luta diária contra os percalços da vida dentro de nossas próprias possibilidades, e cada um tem seus pontos fortes e seus pontos fracos. Além disso, como mencionado acima, o ambiente e a genética são grandes influências na definição dessas características em um indivíduo. Mas podemos, sim, tentar aperfeiçoar essas competências no nosso cotidiano, pois o ser humano tem grande capacidade de mudança e desenvolvimento. Como diz Goleman: “A aprendizagem emocional é para toda a vida.”

Por Julia P.D.

Updated: 3 de Out de 2018

Muitos de nós já ouvimos falar no nome Malala Yousafzai, jovem que ficou conhecida por levar um tiro do Talibã em 2012 ao tentar promover a educação para meninas em seu país, o Paquistão. Mas há muito mais história por trás desse nome do que imaginamos. Além de ser uma ativista de mão cheia pelo direito à educação de garotas no mundo todo, ela também é a mais jovem ganhadora do Prêmio Nobel da Paz devido à "sua luta contra a supressão das crianças e jovens e pelo direito de todos à educação". Apesar de ter apenas 20 anos, já causou grande impacto internacional com sua militância e coragem inabalável ao denunciar os crimes cometidos pelo Talibã. Mesmo após as ameaças sofridas por sua família durante anos e o atentado cometido contra ela, Malala nunca desistiu de expor as injustiças perpetradas contra o povo paquistanês.

Nascida em 1997 no vale do Suat, no Paquistão, a jovem cresceu sendo influenciada pelo grande espírito ativista e revolucionário de seu próprio pai. O sonho de Ziauddin sempre foi construir uma escola para garantir a educação de todas as crianças locais, concedendo bolsas de estudo integrais àquelas de origem mais humilde. Após muitos percalços no meio do caminho, ele conseguiu concretizar esse desejo e tornou-se uma figura de renome no vale por sua bravura e generosidade. Quando o Talibã passou a ameaçar o povo local, Ziauddin fez questão de consolar a filha: “vou proteger sua liberdade, Malala. Pode cotinuar sonhando”. Foi também graças a ele que a jovem paquistanesa não se deixou assustar pelas ameaças à sua volta e percebeu que tinha, de fato, uma voz. Quando adolescente, foi incentivada a conceder entrevistas, a dar palestras e a escrever artigos denunciando a situação das meninas do Suat à imprensa internacional. A partir de então, ela passou a ficar conhecida mundialmente.

No livro Eu Sou Malala, ela descreve em detalhes toda a sua trajetória, desde a infância até 2013, ano em que a obra foi publicada. Também explica como as mulheres são discriminadas em vários níveis em sua cultura, além de revelar as dificuldades que o povo de seu vale natal sofre, como com a falta de eletricidade e de saneamento básico. Trata-se de uma biografia com muito a ensinar, tanto em termos culturais e sociais, como em termos políticos e pessoais. Apesar da tenra idade, Malala mostra ser detentora de um espírito muito evoluído, sendo capaz de transmitir valiosos ensinamentos a quem estiver disposto a ouvir. Como ela mesma afirma, “que possamos pegar nossos livros e canetas. São as nossas armas mais poderosas. Uma criança, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo.” Dito isto, não podemos deixar de explorar mais a fundo os temas mencionados acima nos próximos parágrafos.

A realidade paquistanesa

Quando Malala ainda era criança, o vale do Suat já era assolado por problemas graves, como a ausência de eletricidade, educação precária (especialmente para meninas), carência de atendimento médico e de água potável. Ademais, na cultura paquistanesa, assim como em outros países com ideologias extremistas islâmicas do Oriente Médio, a diferença de direitos entre homens e mulheres fica extremamente evidente. Como descrito pela própria jovem, “nasci menina num lugar onde rifles são disparados em comemoração a um filho, ao passo que as filhas são escondidas atrás de cortinas, sendo seu papel na vida apenas fazer comida e procriar.” Além disso, enquanto os homens podem andar livremente pelas ruas, as mulheres têm permissão para sair de casa apenas se um parente do sexo masculino estiver presente. No entanto, a jovem Malala foi capaz de se libertar de muitas amarras sexistas graças à influência e mentalidade aberta de seu pai, que considerava essa herança cultural e religiosa injusta e sem sentido. Infelizmente, isso não impedia que ela fosse obrigada a seguir as leis impostas pelo Estado.

Pelo menos, a jovem ainda tinha o direito de frequentar a escola, atividade que valorizava acima de tudo. No entanto, com a tomada do poder pelo Talibã, a situação piorou muito. Os extremistas decretaram que meninas não poderiam mais estudar, pois sua obrigação deveria ser apenas cuidar da casa e da família. De fato, muitas atividades que homens podem exercer sem maiores preocupações são consideradas pecados mortais para as mulheres.

De acordo com Malala, muitos muçulmanos ficaram chocados com a interpretação distorcida do Corão pelos talibãs, que disseminavam o preconceito, a violência e o ódio acima de tudo. Eles proibiam os cidadãos - especialmente as mulheres - de realizarem atividades comuns do dia-a-dia, além de promoverem ataques terroristas e torturarem e executarem civis inocentes em praça pública. Porém, mesmo assim, eles acabaram recebendo apoio de boa parte da população local. Segundo Hidayatullah, amigo da família Yousafzai, essa tendência provinha de uma ausência crônica do governo:

“É assim que esses militantes agem. Querem ganhar os corações e as mentes do povo. Por isso, primeiro analisam os problemas locais e atacam os responsáveis por eles. Desse modo conseguem o apoio da maioria silenciosa. Foi o que fizeram no Waziristão, onde perseguiram bandidos e seqüestradores. Depois, quando tomaram o poder, comportaram-se como os criminosos que um dia caçaram.”

Mesmo vivendo em uma realidade restrita e perigosa, Malala e seu pai não pararam de militar a favor da educação e dos direitos básicos dos cidadãos do Suat. Em sua biografia, a jovem descreve um diálogo que teve com Ziauddin: “’Você está com medo?’, perguntei a meu pai. ‘À noite nosso medo é grande, Jani’, ele respondeu. ‘Mas de manhã, à luz do dia, sentimos a coragem voltar.’ E isso era verdade no caso de minha família. Tínhamos medo, mas ele não era tão forte quanto nossa coragem. ‘Devemos livrar o vale do Talibã, e aí ninguém terá de sentir medo.’”

A luta pelo direito à educação

Uma vez que o Talibã começou a ganhar força e dominar o vale, acima de qualquer força policial ou militar, seus integrantes sentiram maior liberdade para intimidar e ameaçar os habitantes locais. Escolas passaram a ser explodidas por homens-bomba, e era só uma questão de tempo até que o mesmo acontecesse com a escola de Ziauddin. Mesmo assim, ele decidiu mantê-la funcionando como forma de resistência contra a opressão dos talibãs. Além disso, diversos professores continuaram a lecionar, e pais de meninas continuaram a mandá-las para a escola. Como excelentemente exposto no livro Eu Sou Malala:

“No mundo existem 57 milhões de crianças fora da escola primária. Delas, 32 milhões são meninas. É triste, mas meu país, o Paquistão, ocupa um dos piores lugares: 5,1 milhões de crianças vão sequer à escola primária (...). Há quase 50 milhões de adultos analfabetos, dois terços mulheres – como minha própria mãe.”

Malala era absolutamente apaixonada pela escola. Como ela mesma afirma, “a escola era meu mundo, e meu mundo era a escola”. A jovem já tinha decidido lutar pelo seu direito à educação até o fim, não importasse o que acontecesse. Com o estímulo de seu pai e de seus professores, ela descobriu ser uma excelente oradora – dessa maneira, decidiu aceitar os convites para entrevistas e palestras da mídia internacional. O acesso à mídia se deu por meio da influência de Ziauddin, militante bastante ativo, possuidor de muitas conexões com empreendedores, políticos, jornalistas e outros ativistas.

Infelizmente, o ativismo de Malala representava uma ameaça crescente para os talibãs – eles a acusavam de veicular a “propaganda ocidental” e, por isso, decidiram eliminá-la. Assim, em uma certa manhã, o ônibus escolar que a jovem ocupava foi invadido por um extremista, que lhe deu um tiro à queima-roupa. À beira da morte, ela foi operada em estado emergencial em um hospital militar local. No entanto, eles não possuíam os meios necessários para tratar uma lesão de tamanha gravidade. Então ela foi enviada ao Reino Unido com a sua família em 2012, onde se recuperou e reside até os dias de hoje. Hoje em dia, ela estuda economia, filosofia e ciências políticas na Universidade Oxford. Mas ela ainda sonha em poder retornar à sua terra natal.

Esperança no futuro

Apesar dos meros 20 anos de idade, Malala passou por muitos percalços e realizou vários feitos importantíssimos desde a pré-adolescência. Sua ávida luta pelo direito à educação das meninas revela sua paixão por causas sociais e espírito militante. A jovem descreve um momento importante em sua biografia, no qual percebeu a sua verdadeira vocação: “Quando cruzamos o desfiladeiro Malakand, vi uma mocinha vendendo laranjas. Para cada laranja que vendia, ela fazia uma marquinha com lápis num pedaço de papel, pois não sabia ler nem escrever. Tirei uma foto e jurei que faria tudo o que estivesse ao meu alcance para ajudar a educar garotas como ela. Era essa a guerra que eu ia travar”. Decidida, ela adentrou o mundo do ativismo, no qual continua até hoje.

Para resumir, Malala Yousafzai é um exemplo internacional de generosidade, tolerância e consciência. Ela inspira milhões de pessoas ao redor do mundo com sua coragem, determinação e força inabaláveis. A jovem representa um símbolo de direitos iguais entre homens e mulheres e do direito à educação de todas as crianças e adolescentes, especialmente no Paquistão. Mesmo após quase perder a vida nas mãos do Talibã devido às suas crenças, ela reitera: “eles atingiram meu corpo, mas não podem atingir meus sonhos.”

Por Julia P.D.

Updated: 3 de Set de 2018

Ninguém pode negar que o advento da Internet trouxe muitos benefícios à nossa sociedade, tanto no âmbito pessoal como no âmbito profissional. Graças a ela, podemos falar com nossos amigos, fazer compras online, traçar o caminho exato até um determinado local e nos candidatar a empregos com uma facilidade nunca antes vista. O acesso à informação tornou-se algo comum em quase todas as partes do mundo, condição que contribui extensamente para uma população mais consciente e mais integrada como um todo. Além de tudo, a Internet também criou um espaço de fala para pessoas de todas as etnias, credos e camadas populacionais. Finalmente as minorias estão ganhando visibilidade e, conseqüentemente, ajudando a criar uma sociedade mais tolerante e mais bem-informada. No entanto, essa nova realidade também está sofrendo retaliação daqueles que desejam manter tudo “como sempre foi”. Afinal de contas, qualquer mudança social conta com a resistência de uma parcela da comunidade.

O discurso de ódio encontrou um novo ambiente para se expressar livremente, protegido pelo anonimato e pelo sentimento de impunidade dos internautas. De acordo com o Movimento Contra o Discurso de Ódio, esse conceito se resume a “todas as formas de expressão que propagam, incitam, promovem ou justificam o ódio racial, a xenofobia, a homofobia, o antissemitismo e outras formas de ódio baseadas na intolerância”. Trata-se, nada mais nada menos, do que uma violação de direitos humanos, a qual se enquadra na categoria de crime cibernético. A ONG SaferNet Brasil, responsável por defender e promover os direitos humanos na Internet, recebeu mais de 2 milhões de denúncias de crimes de ódio desde 2006. Ou seja, precisamos discutir esse assunto com urgência. Ainda necessitamos de políticas públicas que nos protejam de indivíduos mal-intencionados, além de garantir que as leis existentes sejam aplicadas eficazmente nos casos reportados à polícia.

De qualquer forma, o ódio e a intolerância não são sentimentos novos – eles sempre estiveram presentes na história da humanidade –, mas a Internet ajudou a favorecê-los em razão do caráter anônimo e impessoal que ela proporciona a seus internautas. O caso da influência de Hitler na população alemã durante a Segunda Guerra Mundial exemplifica muito bem a ressonância que esses sentimentos podem encontrar em boa parte dos indivíduos, como excelentemente exposto no livro A mente de Hitler, escrito por Walter C. Langer:

“(...) somos forçados a considerar Hitler não um demônio pessoal, independentemente de quão perversas suas ações e filosofias possam ser, mas a expressão de um estado de espírito existente em milhões de pessoas (...). Remover Hitler pode ser o primeiro passo necessário, mas não seria a cura. Seria análogo a remover um cancro sem tratar da doença subjacente. Se erupções semelhantes devem ser evitadas no futuro, não podemos nos contentar em apenas remover as manifestações visíveis da doença. Ao contrário, devemos pôr às claras e procurar corrigir os fatores subjacentes que produziram o fenômeno importuno.”

Ou seja, o ideal seria promover políticas públicas e estimular debates produtivos que incentivem a reflexão, a racionalidade e a tolerância. O discurso de ódio está tão disseminado, justamente porque ainda encontra repercussão em várias partes da Internet, já que podemos encontrar muitos adeptos desse tipo de ideologia. Dito isto, aqui estão algumas dicas para tentarmos, aos menos, reduzir a incidência de crimes de ódio online:

Estimular o debate produtivo

Ao escrever comentários construtivos em fóruns, redes sociais e veículos midiáticos online, ajudamos a promover o debate civilizado e respeitoso entre pessoas que dispõe de opiniões diferentes. É claro que não podemos evitar que todos deixem de expressar ideias intolerantes e preconceituosas, mas podemos influenciar a visão de alguns usuários ao mostrar um exemplo de tolerância e reflexão palpável. Além disso, as escolas deveriam ensinar os jovens a debater, pesquisar e refletir sobre questões sociais de maneira consciente e civilizada. A base desse problema se encontra principalmente na educação – indivíduos informados e politizados tendem a ser mais propensos a promover debates produtivos ao invés de simplesmente destilar ódio e ignorância.

Aprimorar a moderação das interações online

Empresas e veículos responsáveis por redes sociais e sites na Internet deveriam instalar um filtro automático para barrar determinadas palavras e expressões dos comentários, além de empregar uma equipe qualificada responsável por acompanhar as interações entre os usuários. A moderação adequada e eficiente dessas interações é essencial para termos controle sobre as demonstrações abertas de ódio e intolerância online, que só servem para ofender e para incitar outras pessoas a participarem desse fluxo de ódio.

Criar iniciativas para combater o discurso de ódio

Campanhas em prol da tolerância e do respeito à diferença deveriam ser promovidas por escolas, universidades, instituições e órgãos públicos a fim de diminuir a incidência do discurso de ódio no cotidiano. A utilização de redes sociais e de hashtags são muito úteis para divulgar ideais e atitudes que desejamos promover na sociedade como um todo. Nesse caso, podemos reverter a situação e usar o ambiente online como uma ferramenta do bem. Quanto mais pessoas e profissionais da área de educação decidirem se pronunciar publicamente sobre o assunto, mais ele se disseminará entre a população brasileira.

Instituir e reforçar leis contra crimes cibernéticos

O mundo está, finalmente, começando a se adaptar à nova realidade social e às mudanças que o ambiente virtual traz às nossas vidas em termos de legislação. Infelizmente, alguns países ainda estão bastante atrasados nesse quesito, incluindo o Brasil. Apesar de já existirem leis de proteção ao usuário, como em relação à invasão de computadores, roubo de senhas, disseminação de vírus e uso ilegal de dados de cartões de débito e crédito, o país ainda carece de regras específicas que tipifiquem o crime de ódio na Internet. A legislação brasileira considera, oficialmente, a disseminação de preconceito racial, injúria por preconceito, preconceito religioso, ameaças e difamação como crimes passíveis de pena. No caso do preconceito racial, por exemplo, a pena é de reclusão de um a três anos e multa, ao passo que a injúria por preconceito é penalizada com um cárcere de um a seis meses (ou multa). A partir disso, podemos perceber que a punição por crimes dessa categoria são bastante brandas, especialmente se considerarmos que a maioria dos réus acaba pagando somente uma multa antes de sair livre.

A impunidade também é um dos maiores problemas do Brasil, especialmente em relação a crimes cibernéticos. Sem contar que não existem departamentos específicos responsáveis por crimes de ódio na Internet no Brasil, o que torna a responsabilidade pela averiguação dos casos relativamente difusa.

O ideal seria reforçar as leis já existentes, criando regras e penas mais severas para cada tipo específico de crime de ódio (religioso, de gênero, de orientação sexual, racial, étnico, etc.). Também deveria ser criado um departamento para lidar apenas com crimes de ódio, a fim de centralizar e oficializar o combate a esse tipo de delito. Infelizmente, ele continua não sendo levado muito a sério pelas autoridades e pela população em geral, realidade que deve começar a mudar em breve, se depender de nossos esforços.

Para resumir, as demonstrações de ódio na vida real foram transferidas para o espaço público da Internet. Trata-se de um problema típico da sociedade moderna, a qual mudou definitivamente a maneira como nos comunicamos e tomamos decisões em função do constante desenvolvimento tecnológico ao qual estamos submetidos.

No final das contas, quanto mais pessoas expuserem suas opiniões intolerantes e preconceituosas online, mais indivíduos sentirão um respaldo de grupo para fazer o mesmo e, conseqüentemente, perpetuar o ciclo de ódio na Internet. Espero que, com o tempo, tanto as plataformas sociais, como sites, fóruns, escolas e órgãos públicos possam cooperar de maneira mais eficiente para conscientizar o público em relação aos danos que esse tipo de discurso pode causar. Como devidamente elucidado por Yuval Noah Harari, autor do livro Homo Deus: “As pessoas comumente têm medo da mudança porque temem o desconhecido. Mas a única grande constante da história é que tudo muda.”

Por Julia P.D.