Atualizado: há 2 dias

 

Em uma lousa escolar, há um desenho de uma bonequinha, como em um jogo da forca. Da sua boca, sai um balãozinho com várias bandeiras de países diferentes.Em uma lousa escolar, há um desenho de uma bonequinha, como em um jogo da forca. Da sua boca, sai um balãozinho com várias bandeiras de países diferentes.

 

No terceiro e último episódio do nosso especial de ensino, conversamos com os professores Luciana Freitas (Espanhol – UFF), Rogério Neves (Inglês – CP2) e Marcone Rocca (Francês – CP2) sobre a realidade do ensino de línguas estrangeiras nas escolas brasileiras.

 

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>>> SUMÁRIO <<<

Introdução >>> 00:00:00 a 00:04:09

Bloco 1 >>> 00:04:10 a 00:54:19

Panorama do ensino de línguas estrangeiras nas escolas brasileiras

Bloco 2 >>> 00:54:20 a 01:28:37

BNCC: o que muda no ensino de línguas estrangeiras/adicionais?

Bloco 3 >>> 01:28:38 a 01:48:07 Construindo utopias: esperanças para o ensino de línguas estrangeiras

Recomendações e encerramento >>> 01:48:07 a 02:05:54

 

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Luciana Freitas Rogério Neves

Marcone Rocca

Liliane Machado – Twitter: @LilianelMachado / Instagram: @machado.liliane

Vivian Paixão – Twitter: @vivian_paixao / Instagram: @vivianpaixao

 

>>> RECOMENDAÇÕES <<<

MARCONE:

Filme: Que mal eu fiz a Deus? [Qu'est-ce qu'on a fait au bon Dieu?] (Philippe de Chauveron, 2015)

 

LUCIANA:

Filme: A odisseia de tontos [La Odisea de los Giles] (Sebastián Borensztein, 2019)

Livro: O que é lugar de fala?, de Djamila Ribeiro (Letramento, 2017)

 

ROGÉRIO:

Filmes: O retorno de Ben [Ben is back] (Peter Hedges, 2019)

Um ato de esperança [The Children Act] (Richard Eyre, 2019)

 

LILIANE:

Filmes: O Tradutor [Un Traductor] (Rodrigo Barriuso e Sebastián Barriuso, 2019)

Parasita (Bong Joon-ho, 2019)

 

VIVIAN:

Podcast: Babel

Filme: A Chegada [The Arrival] (Denis Villeneuve, 2016)

Perfil no Instagram: @cariocapdesign

 

>>> CRÉDITOS <<<

Música da abertura: Banda Urgia – Literário Literal

Gravação e edição: Thiago Locke / Masmorra Produções (ig @masmorra.producoes)

Ilustração da capa: Fernando Rodrigues Correia (ig @fernando_rcv)

 

>>> PLAYLIST <<<

Elton John – Your song (Em: Elton John, 1970)

Zaz – Je veux (Em: Zaz, 2010)

Pedro Guerra – Extranjeros (Em: Ofrenda, 2001)

Éramos Três – Línguas (Em: Quando eu crescer, 2010)

 

>>> COMO CITAR ESTE EPISÓDIO <<<

PAIXÃO, Vivian; MACHADO, Liliane; FREITAS, Luciana; NEVES, Rogério; ROCCA, Marcone. Sala dos Professores (PARTE III): Línguas estrangeiras na escola. Língua Livre Podcast #14, 05Dez2019. 126 min. Disponível em: https://www.lingualivre.com/post/ll_14

 

  • Língua Livre

Por Acauã Pozino*

 

No dia 10 de novembro, deste nosso fatídico ano de 2019, o pôr do sol sobre os Andes marcou, também, a instauração de uma noite sem estrelas que já se estende por infindáveis dias. O vermelho daquele pôr do sol, mais do que o horizonte, tingiu também as ruas da Bolívia, onde movimentos populares organizados estão, nesse exato momento, dando literalmente seu sangue em virtude do golpe de estado racista aplicado contra o presidente indígena Evo Morales Aima. Os autores? A isto Galeano, 50 anos atrás, já definiu esplendidamente: “(...) uma burguesia comissionista que vende sua alma ao Diabo por um preço que envergonharia ao próprio Fausto”. Esse acontecimento reacendeu, assim como o que vem acontecendo no Chile, desde meados de outubro, e o que vem acontecendo no Equador desde agosto, o debate sobre as estratégias da esquerda brasileira frente às ofensivas do imperialismo estadunidense.

 

Tendo em vista esse debate, estive analisando, informalmente, tweets de personalidades da esquerda a respeito desses acontecimentos, bem como alguns artigos de opinião publicados em diários online afinados com os ideais antifascistas e, principalmente, observando o que deveria ser um trabalho de base feito por figuras com as quais convivo e que se pretendem agentes de propagação desta luta. Alguns camaradas refletem constantemente sobre entraves teórico-metodológicos à efetividade de ditas ações. No entanto, ao lançar um olhar mais atento a este amplo conjunto de textos (considerando que, nele, incluem-se tanto personalidades da esquerda moderada quanto esquerdistas radicais reformistas e revolucionários), salta aos olhos que o maior entrave para a efetividade do discurso antifascista é o fator linguístico-discursivo.

 

Me explico: há uma tendência em grande parte da esquerda, tanto mais agravada quanto mais crítica a situação, de recorrer à adjetivação como resposta a ações perpetradas pelo fascismo, como se a mera força da qualificação fosse capaz, por si só, de mobilizar as massas em virtude do absurdo de tais ações. É comum vermos em artigos de opinião ou no momento do suposto trabalho de base o uso exaustivo de expressões do tipo “direita golpista”, “escória burguesa” ou, em textos mais moderados, “presidente homofóbico e racista”, “ações antidemocráticas”, “absurdos” (que, embora frequentemente tenha a função de substantivo, é um adjetivo em sua origem), entre outras qualificações, muitas vezes dispostas uma atrás da outra.

 

Ora, camarada, mas é preciso chamar as coisas pelos seus devidos nomes! Concordo! Contudo, essa contínua qualificação se torna um problema a partir do momento que não há proposição alguma acerca do que, nominalmente, está exposto. Se fizermos um levantamento da quantidade de adjetivos, tanto em sua função sintática primária como exercendo papel de substantivo, e em seguida um levantamento da quantidade de verbos nesse tipo de declaração, os primeiros sobressaem na grande maioria dos casos. E isso se torna um problema, principalmente no trabalho de base, pois a qualificação traz ao primeiro plano a subjetividade dos atores envolvidos em uma dada situação comunicativa. Tais subjetividades irão construir, dialeticamente, o sentido do discurso. Contudo, faz-se necessário estabelecer um equilíbrio entre as subjetividades que constroem o sentido do discurso e os fatos de que o discurso trata, do contrário cada sujeito tende a se refugiar em sua própria individualidade, renegando qualquer elemento novo que possa conter esse discurso.

 

Traga-se um exemplo hipotético: Um militante de um partido de esquerda chega em uma determinada comunidade – no sentido amplo do termo – para realizar trabalho de base, isto é, politizar e mobilizar os indivíduos daquele local em prol dos ideais que representa.

 

Considere-se que a dita comunidade não tem grande acesso à informação fora do imposto pelo grande capital e nem goza de polos acadêmicos com infraestrutura para surtir algum efeito quanto à alienação inerente ao modo de produção capitalista. Eis que, havendo chegado a este local, nosso militante se senta em uma lanchonete onde, invariavelmente, há uma televisão ligada, exibindo uma reportagem sobre um tema político da atualidade com um posicionamento favorável às políticas ultra capitalistas que acompanham os governos de base fascista. Um cliente do estabelecimento faz algum comentário acerca do exposto na matéria, provavelmente, tendendo a apoiar o aparato fascista, uma vez que não se informou nem foi informado sobre as conseqüências reais de tais ações em sua vida. Nosso militante, então, põe-se a desfilar qualificações seguidas de qualificações acerca do presidente – que é racista, que é homofóbico, que é misógino, que é fascista, que é capacho do imperialismo --, sobre os ministros – que são incompetentes, que são burros, que são uns imbecis – e/ou sobre quaisquer outros personagens da situação.

 

Ora, procedendo dessa forma, nosso militante dificilmente conseguirá a adesão dos presentes na lanchonete, pois, ao rechear seu discurso de adjetivos, levou-o para o campo da opinião, da subjetividade mais profunda, e não da consciência social que, em que pese, passa pela subjetividade, pede uma compreensão dos fenômenos sociais que vá além da própria vivência pessoal de um indivíduo específico. É um discurso que, já no momento de sua enunciação, estava fadado a não ser traduzido em práxis, uma vez que se reduza chamar o conflito de opiniões sem gerar, propriamente, um debate. Não obstante, se nosso militante tivesse tido o cuidado de, ainda que dissesse fundamentalmente o mesmo, usar mais verbos (um presidente que defende que negros sejam mortos, que LGBTQs sejam assassinados, que mulheres sejam estupradas), ainda que, a posteriori, não houvesse tradução em práxis, havia chance de sê-lo. O verbo, com sujeito e objeto(s) bem apontados, traz ao primeiro plano um fator concreto, material. Diante disso, cabe aos sujeitos envolvidos no discurso se posicionar de distintas maneiras, podendo construir dialeticamente um sentido para o fator apresentado. No discurso pura ou predominantemente nominal, não há, em princípio, nada concreto – apenas sujeitos extravasando suas paixões e, portanto, nem esta possibilidade existe.

 

É preciso que os militantes de esquerda se conscientizem de que a forma como seu discurso é construído afeta diretamente no papel que ele exercerá na sociedade. Não se trata, como alguns querem afirmar, de “falar mais gíria” ou “se adaptar à linguagem do povo”, embora a coerência e a relevância sejam, de fato, dois princípios conversacionais muito importantes. Mas, com efeito, não se trata disso; trata-se de algo ainda mais elementar do que a escolha das palavras em si, trata-se do tipo de palavra que será utilizado. Precisamos direcionar o debate para os fatos, as ações concretas do fascismo e expô-las. Sobretudo, construir coletivamente medidas de resistência e reação a elas. Assinalar as contradições, meramente, não basta.

 

Isso se torna ainda mais grave quando tratamos de quadros que, tendo potencial de ação e mobilização, limitam-se ao universo das notas de repúdio e das condenações em público – estas, também, recheadas de qualificações --, dirigindo-se ao aparato fascista em nome “da democracia”, “das liberdades”, etc. Aparte as contradições que estas instituições apresentam já de saída por se tratarem, em sua maioria, de instituições da chamada “sociedade civil” que foram aparelhadas pela burguesia, cabe destacar uma frase, atribuída à mãe do rapper Tupac Sakur: Nenhum povo oprimido conquistou sua liberdade apelando para o senso moral de seus opressores.

 

Então agora esquerdistas precisam ser acadêmicos e didáticos o tempo todo? E quem sou eu para ditar o que se deve ou não fazer? Apenas constato a ineficiência de se utilizar uma linguagem meramente nominal quando em situação de trabalho de base ou comunicação panfletária. Reitero: é preciso colocar os fatos na mesa, os dados da realidade material concreta. Seguirão apáticos depois disso? Talvez. Mas serão apáticos conscientes.

 

 

*Acauã Pozino é articulista do site Língua Livre, ex-aluno do Colégio Pedro II e estudante de Letras: Português-Espanhol na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).