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A era do multiplex

O carro está estacionado e seguro. O cinema, agora, é dentro de um shopping center. O es-

pectador pode aparecer bem próximo do horário da sessão escolhida porque, provavelmente, ele já comprou seu ingresso pela internet. Caso ainda não o tenha, não precisa encarar a fila da bilheteria, pode adquiri-lo em um dos totens

eletrônicos de autoatendimento. Aproveita e, ali mesmo, compra pipoca, refrigerante, cachorro-quente, pão de queijo, sanduíches ou algum outro mimo do snack bar. Para esperar a abertura da sala, senta-se numa confortável cadeira do lobby. E, ao entrar, confere no ingresso qual é o seu lugar marcado e se deita na cadeira de cou-

ro superconfortável da sala. Coloca os óculos 3D, que recebeu na entrada, e aproveita o filme.

Mesmo com alguém à sua frente, ninguém vai ficar com a visão prejudicada. O formato stadium das salas atuais promove conforto e visibilidade

geral para todos.

A experiência de assistir a um filme passou por profundas mudanças, se compararmos

com o ritual de vinte ou trinta anos atrás. Para começar, não é necessário mais chegar com

uma hora de antecedência para comprar os ingressos. Eles podem ser adquiridos on-line.

Outra mudança é o fato de que o espectador pode escolher entre seis, dez, doze, dezoito

salas num mesmo ambiente, o que aumenta consideravelmente o número de opções de

filmes. Atualmente, há filmes em 3D, em 4D, com uma poltrona que treme, salas VIP confortáveis, telas gigantes, salas com som de alta qualidade, projetores com resolução 4K e a comodidade de poder comprar doces, salgados ou até mesmo pipoca com azeite trufado no snack bar. É a era dos multiplex.

Multiplex é um conceito: no Brasil, são cinemas que têm mais de seis salas contíguas, com ampla oferta de filmes, equipamentos de última geração, facilidade de acesso e estacionamento próprio. Já não há mais espaço para uma única sala de mil ou 2 mil lugares como as que existiram até os anos 1990.

Modernização do parque exibidor

O parque exibidor no Brasil se modernizou em cerca de 20 anos. Porém, este foi um processo tardio, se compararmos com outros países.

Nos Estados Unidos, por exemplo, há indícios de multiplex ainda nos anos 1960. No Brasil, eles aportaram em 1987, com a abertura do cinema Park Shopping, com oito salas, no

Distrito Federal. Mas os multiplex passaram a ter uma presença maciça apenas com a chegada da rede norte-americana Cinemark e da UCI, em 1997. Desde então, a mudança foi

intensa e irreversível, e as salas clássicas, de rua, foram fechando. Quando se deparou com salas modernas, com um ambiente high tech, equipamentos de última geração, conforto e segurança, o público voltou para o cinema, deixando a preguiça de lado.

A explicação para a demora foi a crise econômica. Somente em 1995 o país passou a ter uma economia estável. A inflação foi controlada e a moeda ficou mais fortalecida com a mudança para o Real. Consequentemente, a população teve, enfim, um aumento significativo do poder de compra, e conseguiu voltar a consumir com mais tranquilidade lazer e entretenimento.

No entanto, quando os multiplex chegaram, foi com força total. Na época, o parque de exibição estava deteriorado, era precário e insuficiente. Em 1995, o país atingiu o fundo do poço, com apenas 1.033 salas de cinema, o pior número da história da exibição dos últimos 50 anos. Somente a partir de 1996 o número de salas aumentou. Em 1997, o crescimento era tímido, com um total de 1.075 salas apenas, ou seja, havia 2 mil salas a menos se compararmos com o período áureo da exibição, em 1975, quando o parque chegou a ter 3.276 salas. Porém, entre 1997 e 2015 a curva foi ascendente e não parou mais de subir. Ao todo, ao longo desses 18 anos, foram abertas 1.930 salas.

O crescimento e a modernização do mercado exibidor brasileiro nos últimos vinte anos estiveram diretamente relacionados ao investimento do capital privado das empresas nacionais ou internacionais de exibição cinematográfica. Ou seja, a maior parte das 1.930 salas abertas nesse período existe porque as redes investiram no país. As políticas públicas, apesar de serem inéditas e inovadoras, ainda se mostram tímidas para o setor de exibição cinematográfica. A Agência Nacional do Cinema (Ancine) implementou o programa Cinema Perto de Você, com o objetivo de estimular a modernização e a abertura de novas salas. Entre 2010 e 2016 foram aprovados investimentos para 284 salas, e foram inauguradas 235, número pouco significativo se comparado ao total de salas abertas nos

últimos anos.

A expansão para o interior e para as regiões Norte e Nordeste se fazia urgente. Para se ter uma ideia, em 2011, havia apenas uma sala para cada 81.794 habitantes, um número alto, mas que, aos poucos, vem diminuindo. Em 2015, caiu para 68.037 habitantes por sala. No Nordeste, a expansão foi mais expressiva, com variação de 201 mil habitantes por sala (em 2010) para 127 mil (em 2015). No Norte, a queda foi de 165 mil habitantes por sala de cinema (em 2010) para 93 mil (em 2015).

O maior número de salas por habitante ainda é encontrado no Sudeste, onde há 52 mil pessoas por sala. Os atores principais dessa mudança foram os multiplex, que passaram a

olhar com mais atenção para as pequenas e médias cidades de todo o país. Se compararmos com outros países, é possível perceber que o Brasil ainda é deficitário em número de habitantes por sala. Enquanto por aqui existe uma sala de cinema para cada 68 mil habitantes, nos Estados Unidos, Canadá e Suécia, países em que existem proporcionalmente mais salas de cinema, a dimensão é de uma sala para cada 8 mil habitantes. Na Espanha essa proporção é uma sala para cada 12 mil habitantes. Na América Latina o Brasil fica atrás de países como o México, onde há uma sala para cada 20 mil habitantes, da Argentina, que tem uma sala para 48 mil habitantes, e do Chile, com uma sala para cada 45 mil habitantes.

No Brasil, a demora na mudança do parque exibidor teve um aspecto positivo: a modernização total e o uso de tecnologia avançada. Como o país quase não teve salas da primeira geração dos multiplex, que já estariam defasadas no fim dos anos 1990, seu parque exibidor é hoje considerado um dos mais modernos do mundo. Essas salas da primeira geração dos multiplex tinham telas menores e sistema de rampas, algo bastante semelhante aos cinemas de shopping que havia no Brasil dos anos 1980. As grandes redes, quando chegaram, já trouxeram para o país os multiplex mais modernos, considerados de segunda geração, que tinham como principal característica as fileiras de poltronas em formato de arquibancada e som digital.

Quando a Cinemark inaugurou seus primeiros cinemas, em 1997, eles fizeram uma fusão entre o que é considerado primeira e segunda gerações. Meses depois, a UCI e a Cinemark entraram no mercado com a terceira geração de multiplex, ou seja, cinemas com mais salas ainda, chamados megaplex, que tinham mais de dez salas, todas em formato de arquibancada ou stadium. Tratava-se de uma ruptura completa para o mercado.

Transformações na exibição

Seis anos após a entrada da Cinemark e da UCI no Brasil, já era possível notar a mudança radical do parque exibidor, principalmente o das grandes cidades. Pequenas e médias exibidoras que aderiram ao modelo multiplex sobreviveram ao tsunami; outras surgiram ao ver que ainda havia espaço no mercado, mesmo com a entrada das redes transnacionais. O grande número de exibidoras — atualmente são cerca de 150 registradas na Ancine —

transformou o mercado num polo altamente competitivo. No Brasil, 15 empresas exibidoras compõem 90% do mercado nacional, algo impensável em vários outros setores da economia. As oito exibidoras que formam a Abraplex — Arteplex, Cineart, Cinemark, Cinépolis, Cinesystem, GNC, Moviecom e UCI — detêm 52% do mercado de salas e cerca de 65% da bilheteria do mercado nacional.

A competição obriga as exibidoras a oferecer serviços diferenciados, equipamentos modernos e mais opções de entretenimento. Há as salas VIP, salas 4D, D-Box, XD e IMAX, que proporcionam ao espectador diferentes experiências. A concorrência também obriga que essas empresas façam promoções, fiquem sempre atentas à qualidade do serviço, do atendimento, e para que os equipamentos não fiquem obsoletos. Não à toa, algumas redes optaram por se concentrar e não se dispersar pelo país, como é o caso da Cineart, localizada em Minas Gerais, ou da GNC, situada no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Hoje, elas lideram mercados regionais. Nesse período de entrada das redes de cinema, a relação entre distribuidora e exibidora também mudou. Se antes eles tinham uma relação de exclusividade, com a chegada dos multiplex esse acordo passou a não fazer mais sentido, deixando as exibidoras livres para escolher como programar seus cinemas em todo o país, e permitindo que as distribuidoras pudessem espalhar seus títulos Brasil afora. Assim, ganha o espectador, que pode assistir a todos os principais filmes em um único cinema.

Outra mudança marcante foi a transformação da relação entre shoppings e cinemas. Ao chegarem, os multiplex encontraram nos grandes centros comerciais um aliado que deixava o negócio economicamente viável. No entanto, no início da exploração desses espaços, os

cinemas eram vistos com desconfiança. Eram tratados como mais um serviço oferecido em meio a tantos pelo estabelecimento e seus espaços não eram projetados especialmente para salas de cinema. Eram espaços de lojas adaptadas de forma precária, tendo salas com telas pequenas e serviços precários, como a reduzida oferta de comestíveis.

Mas essa história mudou. Hoje, os cinemas são os atores principais ou um dos protagonistas dos grandes centros comerciais. Nenhum shopping ousa abrir suas portas sem um cinema dentro, o que atualmente significa sem um multiplex aberto.

Otimismo, apesar da crise

Os multiplex são rentáveis e trazem maior possibilidade de lucro, apesar de o investi-

mento inicial ser alto. Além disso, o fato de proporcionarem ao espectador uma gama de filmes ao mesmo tempo não deixa a exibidora dependente de um só título. Dessa forma, elas se protegem de um possível fracasso de bilheteria. Quer dizer, caso um filme não dê o retorno esperado na bilheteria, na semana seguinte ele vai para uma sala menor e, com os outros filmes em cartaz, a exibidora não tem uma semana financeiramente perdida. De forma semelhante, um grande sucesso é mantido em cartaz por diversas semanas, permitindo que o espectador o assista quando melhor lhe convier. Já a exibidora de uma única sala teria seu lucro semanal bastante prejudicado.

A digitalização dos cinemas provocou uma profunda modificação na exibição cinematográfica. Em primeiro lugar, trouxe as exibições em 3D de volta, só que, agora, com uma alta qualidade que não se conseguiu obter com as projeções em película 35 mm. Além disso, permitiu que outros conteúdos fossem exibidos na grande tela coletiva, como os jogos da Champion League, óperas, balés, conferências etc., diversificando e aumentando as maneiras de alcançar o espectador.

Em 2015, encerrou-se a total digitalização do circuito cinematográfico brasileiro, propiciando projeções de mais alta qualidade, tanto no que se refere à imagem quanto à sonorização, oferecendo até 16 canais de som.

Por fim, eliminou-se a complexa logística de remessas de cópias cinematográficas que pesavam quase 40 quilos para os cinemas. De acordo com o Observatório do Cinema e do Audiovisual (OCA), da Ancine, em 2016, tivemos 184,3 milhões de ingressos vendidos em 52 semanas. Ainda não atingimos a marca de 1975, quando houve 275.380.446 pessoas em salas de exibição, mas o crescimento é significativo. No pior momento do cinema,

em 1997, tivemos um público de 52 milhões pessoas. De lá para cá, o público mais do que triplicou em 19 anos. Para sermos mais precisos, aumentou três vezes e meia. Em 2008, foi para 89.109.595 pessoas em sala. Em 2012, atingimos a marca de 134.836.791, em 2015, 172.943.242 e, pelo oitavo ano consecutivo, houve crescimento real na bilheteria, com 184,3 milhões de ingressos vendidos.

As receitas de bilheteria superaram a marca de R$ 2,6 bilhões em 2016. A expansão e a

modernização do parque exibidor é um dos principais fatores desse crescimento. O ano encerrou com 3.168 salas em funcionamento e a tendência para os próximos anos é que este número aumente ainda mais.

A crise econômica atual afugentou o consumidor das lojas e dos grandes departamentos, mas nem tanto dos cinemas, porque ainda há uma demanda muito grande por salas no país. Por isso, o potencial de aumento do número de salas no Brasil é ainda enorme. A crise está longe de bater às portas do mercado exibidor. Com o crescimento, vai espantá-la ainda mais.

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