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Não foi assim que imaginei

 

 

 

Foi muito difícil para mim, e creio que também para os meus irmãos – diante de tudo o que aconteceu depois em suas vidas –, enfrentar e tentar superar a dor, a desilusão e a decepção que o divórcio de nossos pais nos causou. Durante muitos anos refleti sobre a vida que ambos levavam e cheguei à conclusão que um dos motivos que provocaram a sua separação foi a falta de aceitação de um para com o outro. Eu ainda era pequeno, mas consigo me lembrar de que minha mãe ficava muito irritada pelo jeito como meu pai sorvia seu café. Ela era uma mulher educada, refinada, culta, e aquele hábito barulhento, para ela, era muito grosseiro, um comportamento inconcebível. Meu pai era um homem rude e modesto, nascido e criado no campo, que cursou somente até a oitava série. Infelizmente, minha mãe nunca conseguiu aceitar ou entender seu modo de ser e nunca procurou adaptar-se à situação. Ao contrário, ela sempre tentou modificá-lo durante todo o tempo em que estiveram casados. Não deu certo! Na verdade, somos criaturas estranhas e complexas. Não economizamos esforços para encontrar a pessoa com quem queremos passar parte de nossa vida adulta e, quando enfim a descobrimos, nos apressamos para selar definitivamente nosso “achado”. Mas depois disso ficamos satisfeitos? Nem tanto. Nossa tendência é logo iniciar um projeto para transformar completamente algumas peculiaridades do nosso/a escolhido/a, as quais, estamos convencidos/as, são incompatíveis com nossa vontade e temperamento. Quanto mais conhecemos e convivemos com outra pessoa, mais percebemos os seus defeitos. Mas é errado tentar modificar o cônjuge? Afinal, não é um benefício procurar “melhorá-lo”? Ou é uma simples questão de egoísmo pessoal? Para responder a essas perguntas, eu quero abordar alguns extremos. O primeiro, que deve ser definitivamente evitado, é a aceitação passiva, que reverte em duas atitudes totalmente erradas: - resignação - “Quer saber? Desisto!” Essa desistência é o resultado de um sentimento de impotência: “Estou amarrado/a a essa pessoa e sou obrigado/a a aguentá-la”. Quando nos resignamos e aceitamos os comportamentos e atitudes indesejáveis de nosso cônjuge, essa acomodação fere nossa autoestima. Começa a crescer no nosso coração um sentimento de incapacidade quando falhamos na tentativa de transformar algo danoso, desagradável, ruim em nosso casamento. Como consequência, nossa autoimagem é afetada e isso prejudica o relacionamento, podendo até, aos poucos, destruí-lo. Por outro lado, o cônjuge pode desenvolver um espírito de mártir, um sentimento de autocomiseração. A pessoa aceita o comportamento do cônjuge certa de que é impossível mudá-lo, mas enquanto isso faz de tudo para demonstrar que é uma pessoa maravilhosa, compreensiva, compassiva e, por que não dizer, sofredora. Sempre que tem oportunidade, faz questão de relembrar e ressaltar, a quem estiver por perto, como tem sido bondoso/a em aceitar alguém tão mau e desagradável. Tal atitude só contribui para manter feridas abertas no relacionamento, criando um distanciamento emocional e, em alguns casos, até mesmo físico. O segundo extremo dessa problemática é a rejeição agressiva, que faz com que a pessoa e a relação corram alguns perigos: Vingança – Traduzida em raiva incontida, irritação, impaciência, frustração por não poder transformar a pessoa naquela que gostaria. A vingança é contraprodutiva porque impossibilita intimidade conjugal do casal e impede as mudanças tão desejadas. Afastamento – “Se não posso transformá-la/o, também não quero me envolver mais com ela/e.” Vários casais pagam um alto preço emocional quando decidem pelo afastamento. Depois de algum tempo estão feridos, machucados e com uma marca que, talvez, nunca se apague. Existem algumas estratégias de manipulação. Posso apontá-las porque, confesso, eu mesmo caí em algumas dessas armadilhas no meu próprio casamento, agindo totalmente errado como marido, e também nos diversos aconselhamentos que já realizei.

1. Chantagem emocional – “Se você não fizer o que estou pedindo, sou capaz de tomar uma atitude extrema!” Provavelmente, existem relacionamentos tão desgastados que a resposta do cônjuge até poderia ser: “Tudo bem, querida/o. Faça como achar melhor. Para mim, tanto faz!”. Na maioria dos casos, a pessoa não está realmente disposta a realizar um ato irremediável, mas utiliza tal recurso com o propósito de ganhar algo em troca. 2. A armadilha da culpa – “Como você pode fazer isso comigo depois de tudo o que fiz por você?” Marido/esposa, tudo o que você fez por seu cônjuge era seu dever e ponto final! Não seja desonesto/a e manipulador/a. 3. Revelação divina – “Deus me disse que você deve fazer o que eu estou lhe dizendo.” Deus não lhe disse nada, não minta! Em mais de cinco décadas de casados, Judith jamais usou dessa artimanha comigo. Ela tem uma comunhão íntima com o Senhor, eu sei disso, e por certo Ele já falou muito com ela; mas Judith nunca transmitiu qualquer recado de Deus para mim. 4. Barganha – “Se você não fizer o que estou pedindo, não farei isso ou aquilo...” Isso é chantagem e uma atitude própria de uma pessoa imatura, irresponsável e egoísta. 5. Suborno – “Faça o que eu estou dizendo e você não vai se arrepender.” Nenhum ser humano detém a verdade completa. Ninguém é totalmente sábio e ninguém está isento de cometer enganos ou erros. 6. Por força e por poder – “Cale a boca e faça o que mandei.” Não é possível tentar calar a vontade própria, a identidade, a personalidade da outra pessoa. 7. Humilhação – “Se você não fizer o que estou dizendo, vou contar coisas a seu respeito aos outros.” 8. Hipocondria – “Por favor, pegue meu calmante. Você está me deixando nervosa/o. Está me aborrecendo! Não percebe que sou uma pessoa doente?” Existem pessoas eternamente doentes, que se utilizam dessas “doenças” para chamar atenção e exigir cuidados constantes. 9. Ajuda do além – “Tenho certeza de que seu pai, que Deus o tenha, ficaria chateado se soubesse como você está reagindo.” 10. Ameaça de infidelidade – “Se você não fizer o que estou pedindo, tenho certeza de que não será difícil encontrar alguém que o faça.” Esta é uma ameaça que demonstra deslealdade, insegurança e ressentimento.

Esses artifícios manipuladores violam o princípio divino de falar a verdade com amor. As manipulações destroem a aceitação mútua, a intimidade, a abertura de comunicação, o respeito e a honestidade familiar. Algumas características pessoais, ao serem identificadas, podem ser modificadas, com determinação, esforço e oração, principalmente se sabemos que aquele traço, ideia, atitude ou hábito incomodam nosso cônjuge. É preciso que o casal parta em busca do real significado da vida, focando em um alvo que não seja única e exclusivamente sua felicidade, sua realização total como pessoa e cônjuge. A felicidade não é encontrada quando se torna um alvo individual. Quando os compromissos de mútuo amor, aceitação, lealdade, etc. feitos no casamento são colocados como prioridade, a felicidade é um subproduto que surge em decorrência. Quando expectativas irreais são transferidas para o relacionamento mais íntimo que há na terra, é impossível que essa união seja bem sucedida. Muitas brigas entre casais refletem expectativas confusas e equivocadas em relação ao cônjuge. Ambos viverão com mais tranquilidade e harmonia se entenderem que não agradarão um ao outro sempre, em tudo. Por isso é importante aceitarmos nosso cônjuge como é. O próprio Deus nos aceita e nos ama como somos. Esse amor incondicional do Senhor deve nos constranger a agirmos da mesma maneira com todos, mas principalmente com nossa esposa, nosso marido. Afinal, quem somos nós para não aceitarmos uma pessoa que o Senhor já aceitou? Apenas Deus é capaz de corresponder a todas as nossas expectativas. Por isso devemos manter nossos olhos fixos n’Ele e fazer nossas as palavras de Davi: “Somente em Deus eu encontro paz e nele ponho a minha esperança. Somente ele é a rocha que me salva; ele é o meu protetor, e eu não serei abalado” (Salmos 62.5-6). O segredo para um casamento continuar sendo bem-sucedido é ficar atento às necessidades do cônjuge, encarando com seriedade cada diferença que venha a surgir. Dessa forma, apesar de não poder garantir que a vida conjugal será um “mar de rosas”, seu esforço para manter um casamento estável e equilibrado, com alegrias e conquistas, será abençoado.

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