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Só tem medo quem tá sozinho(a): coletivo de mulheres Arminina

 

Brena Élem. Foto por Tamires Allmeida (@tamires.allmeidafotografia)

 

É muito significativo ainda a maneira como as mulheres são invisibilizadas na cultura hip-hop. Mas pouco sabemos sobre a participação delas no início do movimento: quem de fato foi a pioneira? Esta foi uma das questões trazidas pela rapper Kainna Tawa (@kainnatawa_) na roda de conversa sobre união e empreendedorismo - “Quem tem medo de mina no rap”, realizado no dia 31 de março, na casa Set - reduto do D Ideia - no Pelourinho.

 

O evento agregou muitas mulheres negras atuantes (e também consumidoras) da cultura hip-hop e homens “que compreendem que este debate é necessário”, segundo a artista Suja (@sujadfato), nome artístico de Pollyanna Menezes.

 

Fala-se muito pouco das contribuições de Cindy Campbell, considerada a primeira-dama do hip-hop estadunidense. Cindy organizou o primeiro baile, que ficou conhecido por ser o “começo do hip-hop”, porém foi ofuscada pela história por ser irmã do lendário DJ Kool Herc, que ao contrário de Cindy é um nome reconhecido internacionalmente. Cindy além de articular eventos de hip-hop, atuou como grafiteira, assinava como PEP-1 (174) e também foi b.girl.

 

 

foto por Tamires Allmeida (@tamires.allmeidafotografia)

 

 

O evento foi a primeira série de rodas de conversa que visa articular mulheres, iniciativa do coletivo colaborativo Arminina, que fazem parte MCs, DJs, poetisas, beatmakers, grafiteiras, pixadoras, b.girls, fotógrafas, produtoras culturais, tatuadoras e skatistas. Além de Suja, o debate foi impulsionado por Amanda Rosa (@amandarosarosa), DJ DMT (@dmtbateonda), a beatmaker Elana (@laela), Brena Élem e Udi Santos, do grupo de rap Visioonarias (@visioonarias), a rapper Cronista do Morro (@cronistadomorro), a MC e pixadora Caiane (@caian.e), a cantora Aidê e a rapper Má Reputação (@ma_reputacao).

 

Neste primeiro encontro discutiu-se sobre as dificuldades presentes no cenário machista do hip-hop, as experiências das artistas e levantou-se algumas proposições, como o oferecimento de uma oficina de noções básicas de som para mulheres, com o artista Mayale Pitanga (@mayalepitangaoficial) na Casa Preta, dia 13 de abril, próximo sábado.

 

 

Kainna por Tamires Allmeida (@tamires.allmeidafotografia)

 

 

Kainna relembra, além do protagonismo feminino, um dos motivos do surgimento do hip-hop foi a união dos jovens.

 

Kainna: Eu não falo apenas para as mulheres, os homens, as crianças também precisam me ouvir. Então a gente precisa ouvir mais e fazer mais músicas para todos nós ouvirmos juntos e estarmos juntos - propostas de união!

 

Caiane, de Aracajú, acredita que os homens estão ainda preocupados com a ascensão feminina em vários aspectos, como o emocional, profissional e econômico. A rapper lembra a maneira como vivemos em uma sociedade engendrada pelo machismo, naturalizado cotidianamente perante as divisões entre os sexos, muito visível na educação das crianças, onde apenas as meninas são encarregadas das tarefas domésticas, enquanto os meninos, não.

 

Brena Élem e Udi Santos participaram do Fórum Nacional de Mulheres no Hip-hop em 2018 e viram, na prática, como é importante ter um espaço de discussão e de articulação das mulheres atuantes no movimento. No entanto, na Bahia, fala-se muito pouco sobre o Fórum, assim, desde o ano passado, elas realizaram uma série de convocatórias para artistas, produtoras e militantes do hip-hop se unirem para ocupar estes espaços.

 

Udi: Cada um sabe o que precisa para continuar sua arte, cada uma sabe o quanto tá trabalhando, se a gente não der valor para nosso trampo, ninguém vai dar.

 

Udi Santos por Tamires Allmeida (@tamires.allmeidafotografia)

 

Uma proposta simples e objetiva foi trazida pela jornalista Beatriz Almeida, que sugeriu que se tenha uma rede online colaborativa, como um grupo no Facebook.

 

Beatriz: Algo semelhante ao grupo ‘eu aceito, eu ofereço’ (do facebook) entre a gente, ex. (alguém diz) ‘tô precisando de um card’, quem puder vai se articular, ‘quero gravar um clipe’, mas todas nós precisamos querer para isso.

 

A rapper Kainná falou também sobre a importância de mulheres negras a frente no movimento, tal como a rapper Nega Gizza, que foi uma das mulheres que lhe inspiraram. Para ela, apesar de tantos momentos difíceis na carreira, enfrentando preconceito e machismo, disse que hoje faz rap para que sua filha nunca desista dos sonhos.

 

foto por Tamires Allmeida (@tamires.allmeidafotografia)

 

Para Aidê, importante é que haja respeito entre as pessoas, principalmente entre as mulheres e homens pretos. O machismo e racismo estão vinculados ao medo.

 

Aidê: O machismo é o modo de nos separar, nos aniquilar, o medo de nos deixar só. Os nossos homens pretos por mais que vacilem, como a gente também vacila, eles sentam do lado da gente, uma luta de pretos e pretas juntos, com respeito.

 

Para Adriele, b.girl, é importante valorizar todos os elementos do hip-hop.

Adriele: A gente vê várias reuniões para discutir rap, para saber como direcionar o trabalho, mas a gente acaba se esquecendo de outros elementos, como pixação, grafite, tem uma indústria gigante envolvendo o rap, (...) temos também que nos lembrarmos das raízes.

 

Se você não pôde colar no evento, pegue a visão desse vídeo realizado numa parceria entre o RAP071 e o D Idea (@d_ideia).

 

 

 

 

A próxima reunião será domingo, no mesmo local, casa Set, Pelourinho, às 15h. Desta vez, o tema será "Mulheres, saúde e sexualidade". Para financiar a reunião, elas estão realizando uma rifa no valor de r$ 3,00. Entrem em contato com @sujadfato. O sorteio será sábado.