Conpresp veta mudança nas regras de ocupação do entorno do Ed. Louveira

Updated: há 4 dias


Imagem de Danilo Verpa, para a Folha de São Paulo

Que alívio ver que a cidade ainda mantém alguma racionalidade no que se refere a sua expansão. Hoje (10/12/19), o Conpresp vetou, por 8 votos a 1, a mudança nas regras de ocupação no entorno do Edifício Louveira, projeto de Vilanova Artigas e marco da arquitetura modernista na cidade de São Paulo, e da Praça Vilaboim, onde o prédio está localizado. O Louveira é tombado desde 1992 e a praça, desde 2007.

O que estava sendo reivindicado ali era a permissão para construir, em terreno contíguo ao Louveira, onde hoje está um antigo casarão da primeira metade do século passado, um edifício de nove andares. A cota máxima permitida ali, pelas regras atuais do tombamento, é o equivalente a uma edificação de dois pisos. Alterada a regra, seria permitido cercar o Louveira com prédios de 9 andares. Além do terreno foco do pedido, à rua Piauí, a regra necessariamente valeria para os terrenos a sul do Louveira, também ocupados por edificações de baixa cota: um predinho na esquina da rua Tinhorão e o casario dessa mesma rua, estreita e ainda mantendo os sobradinhos originais da metade do século passado. Tudo isso estava por vir abaixo (o que engoliria a própria rua, que teria como ocupação urbana ser fundo de prédios de luxo, modelo de deterioração já visto em outros bairros da cidade).

A decisão firme do Conpresp não apenas detém um ato de selvageria urbana, preservando um dos pontos mais marcantes da nossa arquitetura do século 20, mas leva à reflexão de todos sobre a cidade que queremos.

São Paulo parece estar sob uma permanente ameaça de xangaização, de passar pela devastação pela qual passou a cidade chinesa, que teve destruídos bairros inteiros em nome de uma modernização intensa, lá imposta pelo Estado. Os ganhos dos chineses estariam em uma aparente equiparação tardia à modernidade.

Aqui, nossa xangaização tupiniquim convergiria para um único lugar: os bolsos gordos dos especuladores imobiliários, sem qualquer compromisso com a cidade, à margem de qualquer perspectiva de desenvolvimento urbano racional.

A cidade conseguiu um tempo para refletir. Que o faça. Que sejam bem-vindos os projetos de modernização, os de expansão, os de inovação. Mas que jamais esqueçamos de pensar a cidade que somos, acima dos lucros de poucos e focando nos ganhos de todos. (Texto de Jayme Serva, escritor, roteirista e morador do Ed. Louveira, Praça Vilaboim)


Foi realmente um triunfo histórico, mas foi da população, da sociedade civil organizada, das entidades, como o Docomomo, que se manifestaram e interpuseram recursos, dos arquitetos do DPH, que conseguiram apresentar para o conselho a real situação da praça do Louveira e dos danos que a mudança de gabarito acarretaria. Sem luta, lamentavelmente, teríamos sido engolidos e a cidade sairia perdendo, só ganhariam os poderosos das incorporadoras, assim, o que aprendemos é que temos que ser vigilantes e atuantes se realmente queremos deixar uma cidade melhor para nossos filhos.


Arthur Nestrovski, diretor Artístico da Osesp e morador do Louveira



VEJA TAMBÉM:


Conselho recua e indefere mudanças no tombamento da praça Vilaboim, em São Paulo

Folha de São Paulo, 09 de dezembro de 2019


Diário Oficial da Cidade de São Paulo, 12 de fevereiro de 2020



















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