• Sara Barbot

Desde que se sorria ...

 

O perigo de estar deprimido é que hoje em dia, desde que se sorria, a depressão passa facilmente pelos pingos da chuva. Parece haver na sociedade atual um culto de uma felicidade estranha, uma espécie de contador de sorrisos indicador do grau de bem-estar individual visto aos e para os olhos do outro. E desde que se sorria está tudo bem. Não se aflige ninguém. Mas também não se é visto por dentro. E confunde-se rapidamente a tristeza com depressão. Nunca é tanto assim até o ser. Nunca se reparou até desaparecer. Porque até sorria! “Estava sempre com boa-disposição”.

 

Mas o que muitas vezes se ignora é que estar triste é significativamente diferente de estar deprimido. Na sua essência e na sua expressão. A tristeza é sentida de fora para dentro enquanto a depressão é vivida de dentro para fora. E é possível num esforço avassalador disfarçar a depressão. Porque a legitimidade alheia acontece quando na realidade externa ocorre uma desgraça reconhecida. Uma perda, uma morte, uma doença. E aí abraça-se, cuida-se e segura-se. Mas porque será que quando não se entende a tristeza do outro, aquela que persiste e se prolonga, a que não se associa a um evento de vida especifico classificado como desgraça mas se instala em cada pedaço do ser interno, porque será que emerge tanta dificuldade em respeitar mesmo que não se entenda? Em aceitar mesmo que não se compreenda a razão?

 

É que apesar da dor inerente à depressão, o individuo segue a sua vida, faz o seu trabalho, em casa, no emprego, e na escola. E sorri, para não aborrecer o outro, tamanha é culpabilidade que inflaciona desmérito interno que sente. E disfarça até não poder mais. Até acabar o dia.

 

Porque no fim a noite sempre chega, a dor sempre se instala e o vazio sempre permanece.