• Zé Ricardo (TrEiNoPeT)

'Imprinting' e Socialização (1)

Atualizado: Ago 19

A IMPORTÂNCIA DE MANTER A NINHADA COM A MÃE POR MAIS TEMPO

A maioria das pessoas não sabe da importância de manter os cães filhotes convivendo com a mãe e os irmãos de ninhada nos primeiros meses de vida. Mal orientadas, tendem a levar filhotes para casa 45 dias após o nascimento. Esse prazo é insuficiente para o desenvolvimento inicial, tanto psicológico quanto comportamental. A consequência disso é o potencial surgimento futuro de problemas comportamentais, que podem ser mais ou menos graves e mais ou menos difíceis de resolver ou minimizar. Não raro, aquele filhote fofinho e muito querido pode se transformar em um cachorro adulto nada fofo nem tão querido. O pior é que, quando estes estão sob a tutela de humanos não muito responsáveis, podem acabar sendo abandonados e, às vezes, até sacrificados. Quanta tristeza!

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Separar os filhotes da mãe precocemente é quase uma garantia de problemas comportamentais futuros.

Os criadores dignos de confiança não costumam deixar que um futuro dono leve para casa um filhote com menos de 60 dias de vida, e estes 15 dias a mais podem fazer toda a diferença. Infelizmente, inúmeros criadores querem se livrar dos filhotes o mais rápido possível, já que cuidar de toda uma ninhada dá trabalho e envolve despesas.

IMPRINTING

O desenvolvimento psicossocial de um cachorro filhote em sua matilha ocorre no período de imprinting, que é quando o filhote vai aprender os aspectos sociais e psicológicos da sua espécie, ou seja, aprender a ser cachorro, a se comportar como cachorro entre outros cachorros e, dentre outras coisas, a se comunicar como cachorro com outros cachorros. Em outras palavras, ele aprende a emitir sinais corporais e vocais que os outros cães possam interpretar e também aprende a interpretar esses mesmos sinais quando emitidos por outros cães. Além de desenvolverem suas habilidades de comunicação com outros cães de sua matilha, os filhotes aprendem regras sociais e respeito à hierarquia. Se esta janela for mal aproveitada, seja por interrupção precoce ou por interações inadequadas, importantes aprendizados ficarão incompletos ou errados.

Quando os filhotes são muito novinhos, a mãe e os outros cães adultos, se houver, costumam permitir que eles façam quase qualquer coisa. À medida que eles vão se desenvolvendo, os cães adultos começam a ser cada vez menos condescendentes, ou seja, atitudes incorretas ou indesejáveis (na visão dos cães) vão deixando cada vez mais de ser toleradas. Os filhotes começam a aprender que não podem, por exemplo, perturbar o sono de um cão adulto, latir sem ter justificativa, se apropriar indevidamente de comida alheia ou desafiar o líder. Os cães adultos passam a corrigir e educar os filhotes.

Tudo que é aprendido na fase do imprinting é gravado profundamente num compartimento específico de memória, ficando impresso de maneira praticamente indelével. A má notícia (como você já deve ter percebido) é que isso vale tanto para o que é "bem aprendido" quanto para o que é "mal aprendido". Um cãozinho que não "conclui seus estudos de comunicação canina" na fase favorável, poderá carregar por toda a vida dificuldades tanto para se expressar quanto para interpretar corretamente o que os outros cães "dizem", o que pode resultar numa série de problemas. Da mesma forma, uma experiência corriqueira em princípio que, por força de algo inesperado, fique associada a medo ou dor pode ser muito difícil de ser reassociada a uma emoção positiva no futuro.

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Interação entre irmãos de ninhada, uma excelente fonte de aprendizado para toda a vida.

Quando filhotes são separados da mãe e da ninhada com apenas 45 dias, é muito mais provável que eles venham a apresentar, no futuro, problemas como, por exemplo, latir sem parar, rosnar para todo mundo, não respeitar o espaço dos membros de sua 'matilha' de humanos, não ser capaz de interagir de modo apropriado com cães e/ou com pessoas, não saber comunicar suas emoções para outros cães, não saber "ler" as emoções sinalizadas por outros cães etc..

Outro grave problema que geralmente acontece com filhotes que são levados para casa antes da hora é o seguinte: como o programa de vacinação inicial de filhotes só se completa do terceiro para o quarto mês de vida, os donos costumam manter os filhotes isolados dentro de casa, sem contato com outros cães, até que eles tenham tomado todas as doses das principais vacinas. Essa lacuna faz com que haja uma grande chance de os filhotes terem medo de cães desconhecidos. Um filhote assim (e o cão adulto no qual ele vai se transformar) terá medo de cães (animais de sua própria espécie!), como se fossem seres estranhos e ameaçadores. O resultado é que ele vai ser um cachorro antissocial, que vai ficar ansioso e estressado na presença de outros cães, podendo responder de forma agressiva para se defender (reatividade).

Infelizmente, é impossível negar que, para qualquer dono – até para os donos mais experientes – um cão antissocial é um cão indesejado, até porque ele pode ser perigoso. E a melhor coisa a se fazer para evitar tudo isso é deixar o filhote com sua mãe e seus irmãos de ninhada por mais tempo, sendo 60 dias o mínimo recomendado.

(CONTINUAÇÃO DA) SOCIALIZAÇÃO

O período de imprinting, fase crítica na vida do cão, vai da terceira à décima segunda semana, havendo alguns autores que afirmam que a chamada janela de socialização se estende até a décima sexta semana. Para que o filhote que você levou para casa não se torne um cão nervoso, ansioso, assustadiço ou agressivo, você precisa expô-lo a diferentes pessoas, animais, sons, ambientes e situações. Por exemplo, é necessário que ele crie associações positivas com os barulhos da máquina de lavar, do aspirador de pó, do liquidificador, do secador de cabelo, de carros buzinando ou de motores de carros e motos, e até de fogos de artifício.

Além de barulhos, temos que considerar também pessoas de diferentes tamanhos, idades e aparências (barba volumosa, por exemplo), vestidas das mais diversas formas (com uniformes de alta visibilidade, por exemplo) e carregando ou usando os objetos "mais estranhos" do cotidiano urbano, como vassoura, mochila, bengala, guarda-chuva, cadeira de rodas, capacete, óculos de sol, chapéus, carinhos de feira e de bebê etc..

Ainda temos que incluir em nossa lista coisas em movimento, animais de outras espécies, objetos e situações com as quais o cão terá que lidar, como, por exemplo, carros, motocicletas, bicicletas, patinetes, skates, patins, gatos, pássaros, caixa de transporte, coleira, guia, focinheira, corte de unhas, escovação da pelagem e dos dentes, banho, variados tipos de piso, passeio de carro, visita ao consultório veterinário, manuseio de todas as partes do corpo, e assim vai.

Até as doze semanas de idade (dezesseis semanas, segundo alguns autores), seu cãozinho estará aberto a essas novas experiências, desde que as exposições sejam feitas de forma cuidadosa e gradual, evitando incidentes desagradáveis e garantindo associações positivas, como mencionei anteriormente. Depois do fechamento dessa janela de oportunidades, seu filhote terá uma dificuldade muito maior de se habituar a coisas que ele não viu ou não experimentou antes. Do ponto de vista de um cãozinho cuja janela de socialização já se fechou, um grupo de crianças brincando, correndo e gritando, por exemplo, pode ser algo muito assustador e ameaçador se ele não teve uma experiência similar na fase apropriada.

RESUMINDO:

  • Opte por criadores conscientes que mantenham a ninhada junto à mãe por no mínimo 60 dias e que tomem os cuidados necessários para evitar que os filhotes tenham experiências aversivas, garantindo, assim, um imprinting positivo e completo.

  • Aproveite ao máximo a estreita janela de socialização, apresentando ao seu filhote as coisas que farão parte da vida dele (muitas delas já mencionadas acima), de forma controlada e gradual para evitar qualquer experiência que possa gerar associações negativas.

  • Lembre-se que você pode contar, desde o início, com a orientação e o apoio de um adestrador profissional.